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– Maria precisa estudar ! Diz a mãe aflita. Maria está com as notas abaixo da média na escola. Os pais lhe dizem constantemente que essas notas não vão lhe ajudar a ser uma boa profissional. Já a colocaram de castigo várias vezes por conta das notas vermelhas no boletim. Nada funciona e as notas só pioram. Quando é hora de fazer a lição, Maria passa horas procrastinando antes de começar a fazer de fato o dever de casa. Se os pais já puniram e já explicaram as consequências de estudar, por que Maria não quer estudar?

E aí, alguém tem alguma ideia do por que Maria não quer estudar ? Provavelmente diversas respostas vem a sua cabeça. Vou chutar algumas delas.

As crianças de hoje em dia não querem nada com nada.

Maria é uma preguiçosa.

Falta pulso para os pais.

Não sei se acertei, mas essas são algumas das respostas que escuto quando pais e professores relatam que crianças não querem estudar. Mas será que as explicações são tão simples? Foi pensando nessas respostas que decidi escrever esse texto para vocês.

Vou falar um pouco sobre o comportamento de “estudar” e como essa habilidade pode ser ensinada e aprimorada com as crianças e adolescentes. Pensei em dividir o texto em alguns tópicos:

  • O que é estudar ?
  • Por que as crianças/adolescentes não gostam de estudar ?
  • O que pode ser feito para melhorar os hábitos de estudo ?

Quer saber o por que nossa personagem do começo do texto não gosta de estudar ? Continue lendo esse texto e vamos ver se descobrimos.

 

O que é estudar ?

 

Vamos por partes então. Estudar é uma classe de comportamentos. Por que uma classe de comportamentos? Porque envolve vários outros comportamentos como abrir o caderno, segurar o lápis/caneta, escrever, sentar-se em uma mesa, ler, ouvir, estar atento etc. Então, estudar não é simplesmente um único comportamento, nele estão envolvidos vários outros que formarão a classe do que chamamos de estudar.

Ninguém nasce sabendo estudar. Podemos até ter a capacidade neurológica para desenvolvermos essa habilidade, mas antes de tudo ela precisa ser aprendida. E é no desenvolvimento, que esse comportamento de estudar é aprendido através das experiências que a criança vivencia nos ambientes em que está inserida.

Se em casa ou na escola essas habilidades não são estimuladas, dificilmente aqueles comportamentos descritos lá em cima serão aprendidos e desenvolvidos. Estudar é um comportamento consideravelmente complexo, tem aquilo que chamamos de alto custo de resposta. Ou seja, o estudante precisa dispender de uma série de outros comportamentos e abrir mão de vários outros para estudar.

Todo comportamento é aprendido a partir do seu histórico de reforçamento. Dificilmente uma criança vai decidir estudar porque sozinha descobriu que daqui dez, vinte, trinta anos isso fará uma diferença enorme em sua vida. Esse reforçamento precisa ser mais imediato. Mas isso é tema para os próximos tópicos.

O que sabemos até aqui é:

  • Estudar é uma classe de comportamentos;
  • Estudar não é um comportamento inato;
  • É no desenvolvimento que se aprende os comportamentos necessários para estudar;

Agora vamos falar do por que as crianças e adolescentes não gostam de estudar.

 

Por que crianças/adolescentes não gostam de estudar ?

 

Primeiro é necessário destacar que vivemos em uma sociedade que não é muito lá pró-estudo. Dessa afirmação podem surgir várias afirmações, tais como:

– Isso é um absurdo. Sempre digo para os meus filhos estudarem!

– Todo dia dizemos que a educação é a salvação desse país, como que nossa sociedade não é pró-estudo? 

– Se eu não fosse pró-estudo não estaria aqui lendo para fazer minha filha estudar mais. 

Todos argumentos muito válidos. Porém, o que observo é que embora sempre esteja sendo dito para a criança estudar, poucos modelos de como fazer isso são apresentados para ela. A escola o tempo todo é associada como um lugar chato e que estudar é chato. É difícil cobrar que alguém estude, quando temos vários exemplos negativos em relação ao estudo.

Como disse a pouco, estudar é uma atividade de alto custo de resposta. Na maioria das vezes essa atividade entra em conflito com atividades que são naturalmente muito mais reforçadoras, como brincar ou sair por exemplo. Mas pode-se argumentar que estudar também é reforçador, pois produzirá consequências positivas no futuro. Veja bem, no FUTURO, seja ele de longo ou curto prazo.

Crianças e adolescentes ficam muito sob controle de reforçadores imediatos, ou seja, reforçadores que são próximos temporalmente da ação que acabaram de fazer. Quando elas brincam, vivenciam a experiencia de brincar ali naquele momento, quando o adolescente sai com os amigos experiencia os reforçadores ali também naquele momento e não no futuro.

Então aquela estratégia de dizer que estudar é importante porque daqui alguns anos isso será importante não é a mais efetiva.

Diversas vezes escutei de pais que quando o filho tira uma boa nota ele não está fazendo mais do que a obrigação. Normalmente os filhos eram crianças consideravelmente ansiosas no que dizia respeito a estudar, e às vezes passavam a apresentar desmotivação para ir a escola. E por que isso ocorria? Pois esse tipo de discurso retira a possibilidade de a criança ter acesso aos reforçadores de estudar, assim como demonstra que não importa seu esforço, sempre será necessário fazer melhor..

Algo pior do que isso pode acontecer. É muito comum pais focarem nos aspectos negativos e não se atentarem para os pontos positivos. O filho pode estar lendo perfeitamente, mas se ele tirar uma nota ruim em matemática, todo o bom desempenho em português e nas outras disciplinas será esquecido. Quando uma criança é punida por não tirar uma boa nota, lembre-se que todos os outros comportamentos relacionados a estudar também estão sendo punidos.

Dificilmente é ensinado para as crianças hábitos de estudo desde o início da vida escolar. E o que são hábitos de estudo ? São comportamentos emitidos com certa frequência que estão relacionados com o ato de aprender. O que ocorre é que dificilmente as condições necessárias são apresentadas para que os hábitos de estudo se instalem.

O que vimos então:

  • Estudar é constantemente associado a algo chato;
  • Estudar é muito pouco reforçado;
  • Consequências a longo prazo não controlam o comportamento de estudar;
  • Punir o baixo desempenho não aumenta a probabilidade de o aluno estudar;
  • Hábitos de estudo são pouco estimulados;

Agora vamos ver o que pode ser feito.

 

O que pode ser feito para melhorar os hábitos de estudo ?

 

Falamos ali em cima que hábitos de estudo precisam ser aprendidos, mas como isso pode ser feito?

Com o decorrer dos anos, começa a ser solicitado da criança que ela estude em casa, seja através dos deveres de casa, como pelas provas. Desde o início é interessante que essas atividades sejam inclusas na rotina da criança.

Quanto menor a idade, menor é o tempo que as crianças conseguem se manter concentradas em uma única atividade, uma estratégia interessante é intercalar um tempo de estudo e um tempo de descanso.

Ao final do estudo é importante que a criança tenha acesso a uma atividade reforçadora. Por que? Por que inicialmente os reforçadores naturais de estudar não estarão presentes, então é necessário que os pais manejem o contexto para que o comportamento de estudar seja reforçado de alguma forma.

Mas e se essas habilidades de estudo não foram aprendidas no inicio da vida escolar?

Obviamente que se essas habilidades não foram aprendidas, outras estão em seu lugar. Com os adolescentes isso é muito claro. É muito comum que os pais peguem os adolescentes procrastinando no momento em que deveriam estar estudando. Eles ficam sob controle de outras coisas que não o ato de estudar. Às vezes eles passam duas, três horas “estudando”. Mas nessas três horas, pelo menos duas foram respondendo mensagens ou olhando conteúdos na internet. E ao final das três horas eles tem a percepção de que estudaram.

O ambiente de estudo é extremamente importante. Não é possível esperar que uma criança consiga estudar em um lugar repleto de outros estímulos mais reforçadores como brinquedos, jogos, etc. Assim como o adolescente dificilmente conseguirá estudar com acesso a internet (a não ser que o estudo requeira essa ferramenta).

Ações possíveis

  • Intercalar as atividades de estudo com outras (brincar, comer, ver mensagens);
  • Monitorar junto a criança/adolescente se ele está conseguindo estudar;
  • Organizar o ambiente de estudo sem estímulos concorrentes (sons, brinquedos, jogos, etc)
  • Reforçar os comportamentos de estudo com elogios ou qualquer outro reforçador para o estudante;
  • Focar nos pontos positivos e não somente punir os negativos;
  • Não usar o estudo como punição;
  • Estabelecer um momento específico do dia para estas atividades;

 

Essas são algumas possibilidades para melhorar e ensinar habilidades de estudo para a o estudante. Neste texto do Comporte-se estão presentes algumas outras estratégias possíveis. Deem uma olhadinha lá.

E cabe ressaltar aqui pessoal que embora esse texto traga alguns fatores que fazem com que o estudante não goste de estudar, está na história individual de cada um os motivadores para esse “não gostar”. Os fatores apresentados são possibilidades e não verdades absolutas.

Espero que o conteúdo sirva para aplicação no dia a dia de vocês. Qualquer dúvida pode enviar uma mensagem nos contatos abaixo.

Até mais pessoal.

 

 

 

 

 

 

 

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