Uma coisa sempre me chamou a atenção no que diz respeito ao cuidado com as crianças. A dificuldade que os homens têm em assumir sua paternidade. E isso das mais variadas formas.

Desde os meus primeiros atendimentos com famílias, em sua grande maioria a responsável sempre foi a mulher. Posso contar nos dedos o número de vezes em que um pai procurou ou compareceu a um atendimento.

Existem algumas respostas prontas a serem ditas aqui.

“Pais não são responsáveis por essas coisas”

“Pais precisam se preocupar com outras coisas”

“Quem tem que cuidar é a mãe”

Aposto que todos já ouvimos em algum momento, frases que desresponsabilizam os pais de exercerem sua paternidade no que diz respeito ao cuidado com os filhos. Será que essas frases estão certas? Por que ser pai assusta tanto assim os homens?

Queria trazer algumas questões para refletirmos sobre o papel do homem nesse texto. E enquanto escrevo deixo claro que estou colocando minhas próprias concepções a prova aqui, pois afinal de contas também sou homem e cresci imerso em uma cultura que trata a paternidade como algo menor do que ela realmente é.

 

Por que pais abandonam ?

 

Para não trazer muitos números aqui para vocês, sugiro que façam uma pesquisa no Google. Homens abandonam mulheres no momento da gravidez ou após a mesma todos os dias em números cada vez maiores nesse país.

É importante destacar que a noção de abandono nesse caso é bem ampla. Vai desde o pai que não assume a paternidade em termos legais, até o homem que negligencia os filhos em sua criação mesmo permanecendo na casa.

Então não se trata de estar ou não no ambiente. Trata-se de responsabilizar-se. A sociedade como um todo desresponsabiliza o homem de grande parte do cuidado da criança. Em uma visão romantizada do mundo, a maternidade é responsável pelo cuidado e a paternidade fica como responsável por prover as condições para que a mãe cuide.

Quando vemos um pai cuidando sozinho de uma criança o compadecer-se é muito maior do que quando vemos uma mãe fazendo a mesma coisa, mesmo que esta última situação seja infinitas vezes maior.

Não existe uma resposta simples para responder por que pais abandonam. Mas a cada dia mais, tenho a convicção de que ela passa pelo fato de que a sociedade responsabiliza muito pouco o homem no que diz respeito à criação de um filho.

 

E para os que querem exercer a paternidade?

 

Até para aqueles que querem de alguma forma exercer sua paternidade as coisas não são tão fáceis.

Em termos históricos é muito recente a questão do direito a licença paternidade. Apenas em 1988 foi sancionada a primeira lei que dá o direito a licença paternidade de 5 dias para o homem.

Mas aí eu lanço a pergunta. Quantos homens vocês conhecem que solicitaram esse direito? Provavelmente muito poucos.

Alguns porque a empresa não cumpre com a lei, outros porque desconhecem o próprio direito de estar com os filhos nessa primeira fase, e outros porque realmente acham que no início o bebê precisa apenas da mãe.

Em março de 2016 com a promulgação do Marco Legal da Primeira Infância essa licença ganhou a possibilidade ser estendida para 20 dias para empresas que recebem o selo de Empresa Cidadã.

Para maiores informações deem uma olhadinha aqui nesse artigo.

Agora a coisa fica um pouco mais interessante. Lembra quando falei que o homem é muito pouco responsabilizado pela paternidade?

Vocês sabiam que apenas 12% das 160 mil empresas que poderiam aderir ao programa Empresa Cidadã decidiram adotar a licença paternidade estendida?

Sim, 12%. Esse número traz inúmeros questionamentos. O quanto a cultura entende que homens também devem participar do cuidado dos filhos após o seu nascimento?

O quanto homens se sentem seguros em requisitar seu direito quando querem? Como os outros homens vão ver essa sua opção? Como a empresa vai entender essa sua decisão?

Vale lembrar que as mulheres já enfrentam esses questionamentos a MUITO tempo.

O mundo tem mudado rapidamente, o que entendíamos por ser pai a alguns anos já não é o mesmo que entendemos hoje. E para que a paternidade seja vista como algo tão importante quanto a maternidade, é necessário que revisitemos nossas concepções de mundo e passemos a questioná-las.

 

O que a família ganha com a paternidade

 

Tem muitas mulheres se virando muito bem na criação de seus filhos sem os homens para ajuda-las. Apesar de existirem casos em que isso foi uma escolha da mãe, acredito que grande parte delas se deparou com essa realidade sem ter o direito de opinar sobre.

A presença do pai na gestação e na criação, pode trazer uma série de benefícios no que diz respeito ao bem estar da criança.

Em uma pesquisa do instituto Pró-Mundo ficou evidenciado que o pai enquanto participante do pré e pós natal pode favorecer para uma gravidez e amamentação mais tranquila da mãe.

Caso o modelo parental seja positivo, o pai também atua como um modelo a mais para o aprendizado da criança.

Veja bem, a ideia aqui não é supervalorizar a figura paterna. Pois é muito comum ouvir frases do tipo:

“Olha lá como aquela criança é, não tem pai”

“ Olha, apesar de não ter pai deu um bom rapaz”

A paternidade na vida de uma criança faz sim muita diferença quando bem exercida, mas acho que temos exemplos suficientes de que as mães fazem um ótimo trabalho na educação de seus filhos quando os pais os abandonam.

 

Ser pai é um belo desafio

 

Quando estava pesquisando me deparei com essa palestra do Marcos Pianger na TEDx.

Uma coisa dita na palestra me chamou a atenção

O pai que abandona não sabe o que está perdendo.

Educar as crianças é talvez o maior desafio que a humanidade precisa enfrentar nos anos que estão por vir. E apesar de o caminho ser imensamente difícil, as recompensas que ele traz são equivalentes a dificuldade.

É difícil responder a pergunta do título.

Mas talvez algumas coisas possam dar pistas.

A paternidade assusta porque é uma promessa. Uma promessa de uma mudança de vida, uma promessa de que nada será igual ao que era ontem e uma promessa de que você nunca mais será o mesmo.

Se você é homem e está lendo esse texto, se tem filhos ou não, reflita.

Que modelo de paternidade você tem reproduzido?

Se tem dificuldades com a paternidade, por que não procura ajuda?

Espero que esse artigo tenha de alguma forma feito com que vocês refletissem um pouco sobre a noção de paternidade em nossa sociedade. E também espero que mais pais venham ao consultório para tratar das questões de seus filhos.

Se quiserem podem mandar uma mensagem comentando o que acharam do texto.

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