Este artigo tem o objetivo de entender o que é a inclusão escolar e trazer uma reflexão sobre o tema: “por que devemos fazer uma escola inclusiva?”.

“Beatriz chegou até a escola junto com a mãe. Então era aquele o famoso lugar chamado de escola. Por muito tempo pediu para ir até lá, seu irmão ia, seus primos iam e porque ela não ia? Beatriz só não sabia que sua cadeira de rodas não subiria os três lances de escada até a secretaria para fazer sua matrícula e nem conseguiria passar pelas portas das salas de aula. Beatriz e sua mãe decidiram procurar outro lugar.”

E aí? Você já viu alguma história parecida com a de Beatriz?

Se você não viu, sinto te dizer mas elas são mais do que reais.

O que Beatriz buscava era algo que ainda caminha no nosso país, algo que as escolas ainda tem muita dificuldade em entender e que às vezes ouso dizer que não querem. O nome disso é INCLUSÃO.

Aqui neste artigo vou tentar falar um pouco para vocês sobre esse tema, mas vou dividir o texto em algumas partes ok? Pensei em fazer desta forma:

  • O que é inclusão ?
  • Por que fazer a inclusão?
  • O que falta para a inclusão acontecer ?
  • Como a Psicologia pode ajudar neste trabalho?

Vamos lá?

O que é inclusão?

De antemão já deixo claro que se vamos falar de inclusão, temos que assumir que nossas escolas são excludentes, e isso das mais variadas formas. A começar pelas questões estruturais como: escadas, banheiros, salas de aula. E também existem as questões atitudinais como: segregação de alunos dentro da escola, falas e olhares diferenciados, atividades de “quebra galho” que não visam o desenvolvimento do aluno.

Que fique claro que, se vamos assumir que é preciso falar de inclusão é porque a exclusão é presente.

Mas talvez você esteja pensando “A minha escola é inclusiva, o problema é que tem alunos que não dão conta de aprender igual aos outros”

É aqui que entra um outro termo que todos nós devemos conhecer quando vamos falar sobre inclusão, que é o conceito de integração. Integração é nada mais que uma inserção parcial de alguns alunos com deficiência.

O máximo que a escola vai fazer é adaptar uma escada alí, uma calçada aqui, mas quem vai ter que se adaptar ao modelo educacional é o aluno. E os alunos com algum tipo de deficiência mental? Como eles ficam nessa história? Eles até são inseridos, mas vendo o desenrolar da situação e a percepção de que esse aluno não “evolui” a escola o “devolve” para a família.

Não sei para vocês, mas para mim esse raciocínio é extremamente perverso.

Mas então o que fazer?

A inclusão começa quando entendemos que este modelo educacional presente nas escolas públicas ou privadas é falho. Não é cabível acreditar que todas às crianças seguem uma linha de aprendizado igual e portanto precisam das mesmas atividades.

Como diria Mantoan (2006)

A inclusão deriva de sistemas educativos que não são recortados nas modalidades regular e especial, pois ambas se destinam a receber alunos aos quais impomos uma identidade, uma capacidade de aprender de acordo com suas características pessoais.”

A inclusão é nada mais nada menos do que uma oportunidade de proporcionar realização e vitória para crianças sejam elas com ou sem necessidades especiais, através de um modelo educacional que não prioriza a heterogeneidade e sim a diversidade.

 

Por que fazer essa tal de Inclusão?

Existe uma dificuldade enorme por parte das pessoas de entender que a Inclusão de crianças com deficiência na escola não deve acontecer apenas por caridade.

A LBI- Lei brasileira de inclusão (Lei nº 13.146/15) garante que toda pessoa com deficiência tem direito a igualdade de oportunidades como as demais pessoas e não deve sofrer nenhum tipo de discriminação. Então me diga por que dentro da escola isso deve ser diferente?

Ahh então devemos fazer a inclusão só porque a lei manda?

Nãoooo!

A LBI é um marco que regulamenta e garante a inserção da criança com deficiência na escola, mas é por achar que a inclusão deve acontecer só porque a lei manda que as escolas tem criado espaços cada vez mais excludentes, esquecendo de preparar seus ambientes para a recepção destas crianças.

Crianças com deficiência devem ser incluídas pelo simples fato de que devem. Não deveria ser necessário justificar que uma criança pode estar dentro da escola. Se ainda nos perguntamos do porque a inclusão deve ocorrer, não posso deixar de lembrar do que falei anteriormente, a escola e o mundo SÃO excludentes.

Para termos ideia da relevância da inclusão escolar, trago aqui uma estimativa apresentada pela OMS de que atualmente a taxa de autismo em crianças é de 1/68. Para cada 68 crianças uma pode vir a apresentar o TEA, e é esperado que esse número aumente nos próximos anos. Parece justo que nossas escolas fechem as portas para esses alunos?

 

O que falta então para a inclusão acontecer?

Estou dizendo ininterruptamente que a inclusão deve acontecer, mas então, o que impede que isso aconteça? afinal de contas já temos Leis que a amparam, profissionais estudando para receber estes alunos, e uma série de conteúdos disponíveis sobre esse tema.

Agora eu quero que você não fique bravo (a) comigo. Vou dizer uma verdade que observo no dia a dia. Falta MUITA coisa e vou explicar porque.

Existe uma série de barreiras que dificultam a inclusão. Dê uma olhada nelas aí embaixo.

Barreiras ambientais.

  • Ausência da rampas de acesso ou elevadores;
  • Espaços diminutos;
  • Salas com excesso de alunos;
  • Ausência de transporte adequado;

 

Barreiras atitudinais

  • Atitudes discriminatórios;
  • Falta de comprometimento com os alunos com necessidades especiais;
  • Crenças incapacitantes;
  • Falta de diálogo com os familiares;

 

Barreiras Sociais

  • Descrédito para com a inclusão;
  • Ausência de investimento;
  • Modelo educacional excludente;

Ao meu ver estas barreiras são hoje as principais incapacitantes da inclusão. Poderia descrever mais uma série de variáveis que dificultam a vida dos alunos com deficiência, mas aí vocês iriam se cansar de ver listas e mais listas.

O Censo Escolar realizado em 2015 mostra um crescimento considerável em relação as matrículas de alunos com deficiência na educação básica regular. Se em 1998 tínhamos 200 mil pessoa matriculadas na educação básica e apenas 13% destas em classes comuns, em 2014 esse número sobe para quase 900 mil onde 79% estão em turmas comuns.

Os dados que apontam para o aumento no número de alunos com necessidades especiais dentro da escola podem ser interpretados de duas formas distintas. Primeiro podemos ver como algo positivo já que ao menos as escolas abriram as portas para estes alunos e vem tentando desenvolver algum tipo de trabalho com eles.

No entanto, ainda há muito a se fazer. Escolas que mostram-se despreparadas e que apresentam uma série de obstáculos a esses alunos podem em sua tentativa desesperada de inclusão causar algum tipo de sofrimento para os alunos.

“Ahhhhh mas então você está dizendo que é perigoso colocar crianças com necessidades especiais em escolas despreparadas?”

Sim, sem dúvida alguma, mas também digo que é necessário que a cada percepção de uma escola despreparada uma luta seja travada para que ela se organize. Não é mais concebível que a escola se refugie em uma ilha de segurança e rigidez e não se atente para as mudanças que estão ocorrendo.

 

E onde a Psicologia se encaixa nisso tudo?

Vou falar aqui um pouco sobre a abordagem teórica que eu sigo ok? Se houver alguém de outra abordagem lendo fique à vontade para comentar aqui caso falte algo.

Como eu disse mais acima, quando a escola recebe um aluno com necessidade especiais é importante que aconteçam uma série de mudanças. E é aí que os Psicólogos podem atuar diretamente.

Tendo em vista que a Análise do Comportamento analisa as interações entre o indivíduo e o ambiente a fim de identificar o que controla seus comportamentos, estudar a interação do aluno com necessidades especiais e o ambiente escolar é de extrema relevância.

Para esclarecer um pouco, imagine a seguinte situação:

Um aluno com TEA ao ser inserido em determinada sala de aula apresenta uma série de comportamentos considerados como inadequados pela professora, especialmente quando é solicitado a fazer alguma das atividades.

O Psicólogo pode auxiliar na identificação das consequências que estão mantendo estes padrões de comportamento, e através de algumas manipulações do ambiente ensinar comportamentos mais funcionais ao aluno. Há que se considerar que cada caso é avaliado de uma forma distinta levando-se em consideração aspectos biológicos e neurológicos de cada aluno.

Com seu conhecimento o Psicólogo pode impedir que a escola seja apenas um espaço de integração.

Imagine que você convida uma família de ingleses para jantar em sua casa. Vocês se esforçam em proporcionar um bom jantar, gastam horas organizando tudo. Durante o jantar todas as interações se dão em português e nenhum de vocês fala inglês. A comida está boa, a bebida também, mas ninguém consegue se comunicar com os ingleses.

Eis um exemplo crasso de integração causando consequências extremamente danosas para os alunos. E é nesse ponto que o Psicólogo pode trabalhar como um “tradutor” auxiliando escola e aluno a falarem a mesma língua.

 

O que podemos fazer?

O modelo de educação é factualmente um modelo falido, que não leva ou leva muito pouco em consideração as diferenças individuais de cada aluno.

Uma melhora da educação e um processo de inclusão passam por uma reflexão do modelo vigente.

Na perspectiva comportamental, o ensino precisa levar em consideração as particularidades de cada aluno, visto que cada um possui uma história (pessoal, genética e cultural), e portanto responde de diferentes formas aos estímulos. Quando falamos de alunos com necessidades especiais esse ponto fica ainda mais acentuado.

Então que tal se agirmos?

Se você tem um filho ou aluno com necessidades especiais reflita se ele de fato está incluído ou se o que está acontecendo é apenas uma integração.

Reflita se você tem reproduzido exclusão.

Espero que esse texto sobre inclusão escolar tenha contribuído um pouco para a reflexão sobre esse assunto que tanto tem sido discutido. Aproveite para ler outros textos como este no nosso Blog!

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