Provavelmente caso você seja mãe e tenha lido a pergunta do título deste texto, deve ter pensado: “ Não, eu não sou uma mãe superprotetora”. No entanto, talvez você tenha pensado também: “Mas o que ele está chamando de superproteção?”.

Outra possibilidade é você já ter se identificado como superprotetora, e fico feliz em te dizer que reconhecer esta característica é um dos primeiros passos para a mudança.

Por que escrever sobre superproteção?

Primeiro que a superproteção é uma contradição e contradições são um problema.

Contradição porque ao mesmo tempo que passa a impressão de segurança, desprotege aquele que supostamente está sendo protegido.

Se ao final do texto você se identificar como uma mãe superprotetora, deixo duas orientações:

Todo comportamento é fruto da história do sujeito, você não superprotege seu filho porque isso é uma característica inata que já nasceu com você. Você aprendeu esse comportamento na sua história de alguma forma e é impossível ter controle sobre tudo que acontece em nossa história.

Comportamentos se mantém porque produzem algo no ambiente em que ocorrem. Superproteger os filhos dá a sensação de ser uma boa mãe, de exercer a figura materna na sua mais alta capacidade que é a do cuidado. E comportamentos tão enraizados levam tempo e empenho para serem modificados, não se acanhe de procurar alguém para te ajudar.

Tá, dito isto, vamos lá?

Vou falar inicialmente o que é ser uma mãe superprotetora e depois dizer das consequências desta forma de cuidado.

O que é ser uma mãe superprotetora?

Quando nasce um filho as pessoas creditam à mãe a responsabilidade do cuidado. E o que é esse cuidado?

Esse cuidado está relacionado a comportamentos esperados, tais como: proteger de eventos ambientais prejudiciais, garantir a alimentação adequada, proporcionar afeto, etc.

O que acontece é que ninguém nasce pronta para ser mãe.

E isso não é um problema. Aprender com o processo é primordial. Cada criança reage de uma forma diferente aos estímulos e por isso é impossível a existência de um manual.

O problema é  que existe uma variável ambiental que diz o seguinte: “Se você não cuidar direito dessa criança ela vai sofrer”.

Ao ler a frase, ela até faz sentido, a questão maior é a pressão social que existe nela. E muitas mães a partir disso começam a cuidar de forma excessiva de seus filhos. Desde o nascimento já se nota uma certa preocupação com questões que não necessariamente seriam prejudiciais para o desenvolvimento do bebê.

Algumas mãe privam a criança de contato com outros adultos até acharem que elas já estão “fortes”. E que fique claro que não estou falando de situações em que existem particularidades e orientações médicas envolvidas.

A mãe age com algo que chamamos de esquiva. Ou seja, para prevenir um suposto evento aversivo que é o bebe ficar doente, a mãe emite comportamentos que eliminam essa possibilidade. O fato de o bebê não ficar doente reforça esse comportamento o que vai se generalizando para outras questões.

Existe uma racionalidade por trás desses comportamentos, que é a questão do bem estar da criança. O problema está na exacerbação das ações.

Outro exemplo possível é a mãe que ao levar seu filho para brincar no parque, ao ver a aproximação de uma outra criança, prevê que seu filho irá querer brincar com o brinquedo dos outro e ambos vão brigar e com isso seu filho irá sofrer. Diante da “ameaça” retira seu filho do ambiente supostamente aversivo.

A consequência de retirar o filho do ambiente, elimina a possibilidade de ter que lidar com o sofrimento do filho. E ela acredita que um filho que não “sofre” é um filho bem cuidado.

Todos esses comportamentos vão sendo reforçados no dia a dia o que faz com que eles se mantenham. E quando por ocasião a criança é exposta a algum evento que lhe fuja do controle a mãe é imersa em um sentimento de culpa muitas vezes fortalecido pela punição advinda do ambiente social em que está inserida.

Junte duas coisas. Comportamentos que superprotegem sendo reforçados e punições para as “falhas” e você terá uma mãe superprotetora.

Talvez você esteja se perguntando: Mas esse comportamento é aprendido só após a experiência de ser mãe?

Como disse lá no início, todo comportamento é aprendido e sua explicação está na história individual de cada sujeito.

Algumas mães também tiveram modelos superprotetores em sua criação, e através desses modelos replicam a mesma ação com seus filhos. Às vezes esses modelos ainda estão presentes e auxiliam na manutenção e fortalecimento dessa forma de cuidado.  Como por exemplo a avó que determina como a mãe deve ou não lidar com as experiências do filho.

3 características de uma mãe superprotetora

São muitas as possibilidades para o desenvolvimento desse padrão de comportamento. Mas pensei em três características principais que definem uma mãe que é superprotetora.

  1. Preocupação constante com possíveis ameaças.
  2. Sentimento de culpa quando algo foge do controle;
  3. Uma cobrança excessiva de si própria e dos outros a sua volta para que o filho não sofra;

Existem outras características, mas ao meu ver estas três são uma constante quando falamos de superproteção.  

Depois de ler este primeiro tópico talvez você até tenha se identificado com algo do que foi dito, mas talvez esteja pensando:

“Ok, e qual é o problema disso se meu filho está protegido?”

Para saber sugiro que continue a leitura.

Consequências da Superproteção

Lá no início do texto eu disse que a superproteção é uma contradição, pois ao mesmo tempo que “protege”, ela desprotege.

Por que isso ocorre?

Como você aprendeu grande parte dos seus comportamentos? Pense naqueles que você mais valoriza? Pense nas habilidades de comunicação, nas habilidades esportivas, artísticas, etc.  Acredito que foi vivenciando as experiências.

Dificilmente alguém aprende a ser um bom orador, sem ter modelos e experiências vivenciadas de falar em público e ser reforçado por isso.

É improvável que um atleta consiga bons resultados sem se colocar na situação de competição.

E muito provavelmente nestas experiências também aconteceram os chamados fracassos, que de alguma forma serviram para modelar um comportamento com maior probabilidade de ser reforçado.

O que estou querendo dizer que as vivências tem um papel indispensável na aquisição de comportamentos. É na interação com o mundo que eu sou modificado e ao mesmo tempo o modifico.

Agora imagine uma mãe que desde cedo priva seu filho de ter essas vivências.

Vou contar uma pequena história para ilustrar o que estou dizendo.

É chegada a hora de Camile fazer seu dever de casa. Camile tem oito anos, mora com os pais e a irmã mais nova. É comum que a mãe a ajude a fazer seus deveres e naquele dia não seria diferente. Lá estão elas, mãe e filha prontas para a realização da tarefa. Camile abre o caderno e o primeiro exercício é de português. Ela não se lembra da explicação dada pela professora. Ela se sente mal por isso. A mãe ao ver a cara de tristeza da filha pergunta para a filha o que está acontecendo? Ao saber o motivo, pega o lápis e preenche o que era pedido no exercício, e diz: – pronto filha! Vamos para o próximo.”

O exemplo é óbvio para servir de ilustração. Mas fica a pergunta: Em algum momento você já se pegou realizando algo PELO seu filho?

O problema dessa história toda, é que Camile não teve acesso a outras possibilidades, como por exemplo pedir ajuda para a professora no dia seguinte, o que faria com que ela voltasse a ter acesso ao conteúdo e pudesse aprendê-lo de fato.

Isso quer dizer que a mãe não devia ter ajudado a filha com a sua dificuldade?

Não. Isso quer dizer que a mãe não devia ter RESOLVIDO sozinha o problema.

Atitudes como essa podem desenvolver impaciência nas crianças. Os reforçadores sempre chegam tão rápido que é estranho quando alguém tenta fazer algo diferente. Ou você acha que a Camile vai ter paciência quando sua professora não fizer para ela o exercício?

Outro problema da superproteção é que ela não proporciona que a criança desenvolva um repertório amplo de habilidades.

Quando uma mãe retira o filho de experiências de aprendizado, ela reduz drasticamente seu repertório comportamental.

Vejo adolescentes hoje que falam inglês fluente mas não sabem comprar uma batata no supermercado.

O problema é saber inglês? Não, o problema é que provavelmente esse adolescente nunca foi exposto à experiência de ter que comprar nada para a casa. Um dia esse adolescente será colocado em situações que pedirão um repertório desse tipo e ele não saberá como agir. Com isso existem duas possibilidades: alguém fará por ele, ou ele será punido por não saber como fazer.

Junto a esse baixo repertório comportamental, TUDO passa a ser perigoso para a mãe e para o filho. Para a primeira por perceber que o filho não consegue fazer sozinho e para o segundo por ter certeza disso.

Outro desdobramento possível para a superproteção é a possibilidade de quando chegar na fase da adolescência o filho venha a se revoltar com a superproteção. Por que isso pode acontecer?

Já ouviram a frase: “ele ficou rebelde do nada” ou “ele não era assim” ?

Quando o adolescente passa a ter acesso a outras contingências que não a superproteção da mãe ele pode começar a buscar uma certa liberdade. O que provavelmente vai bater de frente com os anseios da mãe que não saberá lidar com esse comportamento dos filhos.

E é nesse ponto que os problemas maiores ocorrerão.

De um lado teremos um adolescente que possui baixo repertório para lidar com frustrações e de outro uma mãe apegada a um modelo parental que não faz sentido para o filho.

Quando falamos de comportamento, existem inúmeras possibilidades frente as diversas interações possíveis. Estas consequências que optei por apresentar aqui são apenas uma pequena parte do que é possível ocorrer.

Algumas Considerações

Pessoal, é importante destacar que o texto não tem a menor intenção de julgar mães que fazem o melhor para cuidar de seus filhos. Ser uma mãe superprotetora também tem ver com amor. No entanto, é necessário refletir sobre essa prática vide as consequências que já foram observadas em outros casos.

Também gostaria de esclarecer que utilizei as mães como referência por perceber que em sua grande maioria são as que chegam ao consultório. Mas, pais, avós, ou qualquer outro tipo de responsável também podem ter práticas consideradas como superprotetoras.

Infelizmente existe uma pressão social gigantesca encima da figura materna enquanto responsável pelo cuidado dos filhos, o que como disse anteriormente contribui para que as mulheres se sintam culpadas quando tem alguma dificuldade com o cuidado dos filhos.

Se você se identificou de alguma forma com esse texto não tenha receio de procurar a ajuda de um profissional.  Faça uma auto análise. O que poderia acontecer caso você deixasse seu filho ter mais liberdade ?

Será que seria tão ruim?

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